Na Vila Camaleão, crianças estudam ciência, história, matemática, linguagem e arte a partir de perguntas reais, experiências práticas e pesquisas construídas coletivamente


Em uma sala de aula, crianças investigam como a eletricidade circula em um circuito para acender a Fênix, símbolo da turma. Em outro momento, estudam a roda e descobrem como uma invenção aparentemente simples abriu caminho para meios de transporte, engrenagens, moinhos, elevadores e diferentes sistemas de movimento. Também pesquisam a origem do papel, reaproveitam folhas de rascunho e produzem, com as próprias mãos, uma nova folha reciclada.
As experiências fazem parte do projeto anual “Guardiões do Tempo”, desenvolvido , em 2025, pela Turma Fênix, do 5º ano do Ensino Fundamental da Escola Vila Camaleão, em Uberlândia. A proposta nasceu das perguntas das próprias crianças, que, em uma roda de conversa no início do ano letivo, demonstraram curiosidade sobre como a humanidade construiu conhecimentos, tecnologias, culturas e formas de viver ao longo da história.
A partir daí, os alunos assumiram o papel de pesquisadores. Formularam hipóteses, buscaram informações em diferentes fontes, realizaram experimentações, produziram registros e compartilharam descobertas com a comunidade escolar. No percurso, trabalharam conteúdos de Ciências, Matemática, História, Geografia, Língua Portuguesa e Arte, em uma dinâmica que conecta currículo, experiência e autoria infantil.
De acordo com a diretora pedagógica da escola, a pedagoga Patrícia de Paulo, o objetivo é mostrar que a aprendizagem não precisa estar limitada à repetição de conteúdos ou ao formato tradicional de sala de aula. “A criança aprende quando ela se sente parte do processo. Quando pergunta, testa, erra, conversa, registra e constrói sentido para aquilo que está estudando, o conhecimento deixa de ser abstrato e passa a fazer parte da vida dela”, afirma.
Fundada em 2020, com 27 alunos, a Vila Camaleão tem hoje 180 estudantes. A escola trabalha com uma proposta baseada na pedagogia sistêmica, na aprendizagem por projetos e no olhar integral para a criança. Na prática, isso significa considerar não apenas o desempenho acadêmico, mas também os vínculos, a história, a família, o tempo individual, as emoções e a forma como cada aluno se relaciona com o mundo. “Pedagogia sistêmica é olhar para a criança de forma integral, honrando e reconhecendo que ela chega à escola com sua história, seus vínculos, sua família e seu jeito único de sentir, aprender e se relacionar com o mundo”, explica Patrícia.
Na rotina escolar, essa abordagem aparece em situações simples e cotidianas. Quando uma criança chega mais sensível, agitada ou retraída, por exemplo, a escola busca compreender o que pode estar por trás daquele comportamento. Mudanças na rotina, nascimento de um irmão, saudade da família, inseguranças ou fases do desenvolvimento são consideradas antes de qualquer resposta imediata. “A criança não chega sozinha à escola. Ela chega com sua história, seus afetos e suas relações. Por isso, acolher não é deixar tudo acontecer. É escutar, compreender e construir caminhos junto com a criança e, quando necessário, com a família”, complementa a diretora pedagógica.
Aprender pela experiência
No projeto “Guardiões do Tempo”, a investigação sobre a roda levou os alunos a construírem objetos e maquetes para compreender como o movimento circular impulsionou novas formas de resolver problemas. Durante a experiência com eletricidade, o conceito de circuito elétrico se tornou visível quando as crianças conseguiram acender a Fênix. Já no estudo sobre o papel, os estudantes relacionaram escrita, comunicação, memória e consciência ambiental ao produzir papel reciclado.
O material pedagógico da escola registra falas das próprias crianças durante as experiências. Ao observar a produção de papéis reciclados, uma aluna percebeu que “os primeiros papéis ficaram grossos porque estavam menos diluídos”. Outra criança associou estruturas construídas no estudo da roda a engrenagens, motor de carro e máquina. Na investigação sobre eletricidade, os alunos discutiram a presença de fios, bateria e cobre como transmissor de energia.
Para Patrícia, esse tipo de registro mostra que a criança não apenas executa uma atividade, mas constrói pensamento. “Quando a criança explica o que observou, compara resultados e levanta hipóteses, ela está desenvolvendo raciocínio, linguagem, argumentação e capacidade de investigação. Isso é aprendizagem profunda”, diz.
A proposta também aparece em outras turmas do Ensino Fundamental. No 1º ano, crianças investigaram esportes a partir do corpo humano, movimento, cooperação e respeito. Em outro projeto, a construção de castelos com garrafas PET levou ao estudo de unidades, dezenas e centenas de forma concreta. Já no 4º ano, o estudo de biografias de astronautas conectou Língua Portuguesa, História, leitura, escrita, pesquisa e autoria.
Crescimento a partir da confiança das famílias
A diretora administrativa da Vila Camaleão, Ariane Lopes, afirma que o crescimento da escola está diretamente ligado à confiança das famílias na proposta pedagógica. Segundo ela, a Vila nasceu pequena, atravessou o período da pandemia e foi se consolidando, principalmente, pela indicação de pais que já vivenciavam a rotina da escola. “Nosso crescimento veio muito pela confiança das famílias. A Vila nasceu pequena, atravessou momentos desafiadores e foi se consolidando porque as pessoas perceberam que existe aprendizagem, existe intencionalidade pedagógica e existe um cuidado real com a infância”, afirma Ariane.
Essa demanda das famílias também deu origem à Vila Baby, berçário criado em 2026 e que já conta com 50 bebês. A proposta nasceu do desejo de pais que já tinham filhos na Vila Camaleão e buscavam, para os bebês, uma continuidade do mesmo olhar: acolhimento, vínculo, respeito ao tempo da criança e parceria próxima com a família.
Para Ariane, esse movimento mostra que a escola deixou de ser apenas uma escolha para uma etapa da infância e passou a representar, para muitas famílias, uma forma de educar. “A Vila Baby nasce dessa relação de confiança. As famílias queriam que os filhos menores também fossem acolhidos dentro da mesma essência, com cuidado, escuta e respeito ao desenvolvimento de cada criança”, destaca.
A escola também avalia novos caminhos de crescimento para os próximos anos, sempre a partir da escuta das famílias e da preservação da essência pedagógica que sustenta o projeto. Para Ariane, qualquer movimento de expansão precisa respeitar a identidade construída desde a fundação da Vila. “Crescer, para nós, não é apenas abrir mais espaço. É manter vivo o cuidado com a infância, com as famílias e com a forma como a aprendizagem acontece. A Vila só faz sentido se conseguir preservar sua essência em cada novo passo”, afirma.
Leveza não é ausência de profundidade
Para a escola, um dos principais desafios é ampliar a compreensão sobre modelos de aprendizagem que valorizam brincadeira, natureza, investigação e vínculo sem abrir mão do desenvolvimento acadêmico. “Ainda existe a ideia de que aprender com leveza é aprender menos, e não é isso que acontece. A leveza está no caminho, não na ausência de profundidade. A criança pode brincar, pesquisar, conviver com a natureza, ser acolhida e, ao mesmo tempo, desenvolver competências acadêmicas importantes”, reforça Ariane.
Patrícia acrescenta que a proposta da Vila Camaleão parte da compreensão de que a infância não precisa ser apressada para que a criança aprenda. “Quando a escola respeita a infância, ela não reduz a exigência. Ela muda o caminho. A criança aprende melhor quando encontra sentido no que faz, quando se sente segura para perguntar e quando percebe que suas ideias têm valor”, afirma.

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