Clássico de Nelson Rodrigues traz Lavínia Pannunzio de volta aos palcos de Uberlândia

Atriz uberlandense está ansiosa para reencontrar público de sua cidade natal

Eu tive o prazer e a honra de entrevistar a atriz Lavínia Pannunzio poucos dias antes da peça “Boca de ouro” desembarcar em Uberlândia. Além de conversar sobre o espetáculo, que estará em cartaz no Teatro Municipal, neste final de semana, também falamos muito sobre a sua história e a sua carreira no teatro. Um pouco deste bate-papo, você vai conferir aqui.

Nascida em Uberlândia, Lavínia não vê a hora de retornar aos palcos em sua cidade natal. A atriz está animada e empolgada com a oportunidade de reencontrar o público da cidade do Triângulo Mineiro. Essa saudade se explica, pois sua última apresentação, atuando como atriz, em uma peça de teatro, no quintal de casa, foi há 30 anos.

Foto: Divulgação

Esse retorno acontece em grande estilo, a final, não é todos os dias que temos o prazer de acompanhar um clássico de Nelson Rodrigues, assim tão de pertinho. E sobre o dramaturgo, Pannunzio destacou a linguagem, os fascínios, a qualidade e a quantidade de referências que fizeram com que suas obras se imortalizassem.

“Ele é um gênio! Quando se aprofunda nas obras do Nelson, você entende as referências dele. Ele viu muito cinema e leu os escritores contemporâneos a ele. E a partir desta cultura adquirida, o escritor conseguiu criar a sua própria linguagem. De certa forma, se apropriando da linguagem de outros autores. E você percebe essas referências históricas adaptadas para a realidade carioca das décadas de 50, 60 e 70.

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É um êxtase conhecer o Nelson por dentro! O Nelson é inquieto com inconsciente e com as pulsões da alma humana. Ele tem algumas paixões, como a morte, por exemplo. Porque ela desencadeia nos personagens, as paixões dos outros personagens. Ela desmoraliza qualquer atitude do ser humano, seja diante da morte do outro ou diante da própria morte. Nelson conseguiu romper com o pudor, a moralidade e agiu por instinto. A morte para o escritor tem muitos gritos e sons diferentes”, enfatizou a atriz. Aliás, Lavínia fala com propriedade sobre o dramaturgo, pois essa não é a primeira peça de Nelson Rodrigues que ela participa. Há quatro anos, a uberlandense fazia parte do elenco do espetáculo “Vestido de Noiva”, dirigido por Eric Lenate

Agora, voltando a viver um personagem do escritor, mas dessa vez, comandada por outro grande diretor, Gabriel Villela. Este não é o primeiro trabalho de Lavínia com Gabriel. Os dois se conhecem de longa data e já trabalharam juntos em outras oportunidades.

O talento de Gabriela Villela é reconhecido pela riqueza de detalhes e cuidado com a mensagem repassada ao público. Esse perfil detalhista, preocupado com cada movimento, com o figurino, com a sonoplastia, com o palco, o roteiro e o público, se mantém no espetáculo “Boca de Ouro”. “Gabriel Villela, colabora com a beleza e a grandeza do Nelson. Ele aposta todas as suas fichas na beleza e na riqueza de detalhes, destacados no palco e no figurino. Além claro, de todo o cuidado com o roteiro. Isso é o que Uberlândia vai ver, um homem com senso estético apuradíssimo, com uma inteligência e, uma certa liberdade, para lidar com os gêneros e linguagens do teatro, a serviço do ‘Boca de Ouro’ ”, afirmou Pannunzio.

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Atento a todos os movimentos do teatro, Gabriel adaptou a história do mítico bicheiro em um musical. Podemos esperar samba, alguns clássicos imortalizados da música brasileira e muitas surpresas nessa superprodução.

Logicamente, para conseguir transmitir as mais diversas emoções presentes em um espetáculo de Nelson Rodrigues, o elenco deve ser talentoso e estar em harmonia. Isso não falta nesta montagem de “Boca de Ouro”. Além da nossa querida Lavínia, o elenco da peça conta com Mel Lisboa, Malvino Salvador, entre outros. Pannunzio cita todos do elenco com muito carinho e admiração, destacando a importância de cada um da equipe para o sucesso do espetáculo.

A atriz relatou a entrega do ator Malvino Salvador ao personagem principal e também o talento de Mariana Elisabetsky, que além de atuar, empresta a sua voz em boa parte das canções do espetáculo. No entanto, a uberlandense ressalta que todos cantam na peça.

Sobre a sua personagem, a experiente artista, nos contou que desenvolveu um novo jeito de falar. E nos deu uma palhinha sobre como é a Guigui. Uma mulher suburbana, apaixonada, dramática, divertida e sem papas na língua.

Foto: Divulgação

E para finalizar, sobre o espetáculo, a filha de Uberlândia não esconde a ansiedade para reencontrar o público apaixonado por teatro. “É uma grande obra! Elenco maravilho! Eu espero que o povo vá!”, concluiu a artista.

Mas eu não podia encerrar este texto sem contar um pouco da história e da luta dessa grande artista, que ama a sua cidade natal, no entanto, decidiu ganhar o mundo e viver um sonho.

Lavínia Pannunzio nasceu em um ambiente privilegiado. Filha da escritora Martha Pannunzio, sua casa era frequentada por muitas pessoas “esquisitas”, que mais tarde se tornariam amigos e amantes da arte.

Foto: Divulgação

A experiente atriz conheceu o teatro brincando na casa da avó Joaninha. A meninada se reunia à tarde para brincar de teatro. A molecada se divertia com as histórias das peças teatrais, que a vovó Joaninha aprendeu em seus tempos de escola.

Porém, foi aos 13 anos, que a então jovem Lavínia, descobriu o que queria fazer pelo resto da vida. Ela conheceu Humberto Tavares, responsável por criar um grupo de teatro na cidade. No início, a jovem acompanhava os ensaios, somente no ano seguinte, subiria ao palco. No início da década de 80, ela estreou no teatro com a peça “ O Noviço”. A artista nos contou que os ensaios duraram um ano e eram realizados aos finais de semana, no quintal da casa dela. Logicamente, todos os envolvidos ajudavam na produção da peça.

Cada vez mais apaixonada pelas artes, a jovem decidiu estudar artes cênicas e, para isso, precisou mudar de cidade. Ela prestou vestibular e acabou se formando na Unicamp. Nessa época de faculdade, a atriz nos contou que recebeu todo o apoio dos pais e dos professores que a ajudaram na graduação, pois durante os anos de curso, Lavínia ficou dividida entre espetáculos e família.

Como uma legitima mineirinha, Lavínia, aos poucos, conquistou os palcos do país. Já trabalhou em grandes espetáculos e com grandes diretores, se consolidando como um dos grandes nomes do teatro brasileiro.

Porém, mesmo conseguindo viver seu sonho de infância, a atriz reconhece a dificuldade de se viver, exclusivamente, de arte no país. Há pouco incentivo, há pouca educação cultural no Brasil. As pessoas não dão o verdadeiro valor á cultura, á arte, seja ela qual for, mesmo sabendo que a arte e a cultura são o maior “trunfo” de um povo.

“A minha vida no teatro não é uma vida estável. Isso não é um mérito meu e, sim, um mérito do país, que olha com pouco interesse para a cultura. O Brasil não é um país que voltou seus olhos para a cultura”, desabafou a atriz.

Acredito que quando você chegar ao final deste texto, não faltarão motivos para lotar o Teatro Municipal neste final de semana. Temos um grande clássico de Nelson Rodrigues, com um grande elenco. E, claro, devemos prestigiar uma grande artista local, que luta todos os dias para continuar vivendo um sonho de infância.

Serviço:

Local: Teatro Municipal de Uberlândia

Apresentações: Sábado, às 20h30; Domingo, às 19h

Ingressos

Os interessados em adquirir os ingressos podem comprar na bilheteria do teatro, na loja Provanza, do Center Shopping; Brasal Incorporações, no Jardim Karaíba; Bouclè Salon, no Morada da Colina; ou, ainda, por meio do site www.megabilheteria.com. Os valores variam entre R$100 a inteira e R$50 a meia.

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