Elza Soares é ovacionada pelo público em dia marcado por contratempos e chuva no Festival Timbre

A grande magia dos festivais é a oportunidade de conhecer novos talentos, é poder interagir e conhecer pessoas que pensam e tem gostos e estilos diferentes do seu, é você estar preparado para ter novas experiências e aprender com cada um delas. O Festival Timbre cumpriu muito bem o seu papel, durante estes quatro dias de festa, onde a diversidade, o poder da voz, o poder da mulher, especialmente da mulher negra, foram celebrados.

Destes quatro dias, acompanhei in loco os três primeiros. E, por conta da quantidade de material, irei fazer uma série de matérias ao longo desta semana. Pessoal, tem muita coisa boa! Entrevistas exclusivas com Supercombo, Plutão Já foi Planeta, Joana Bentes e muito mais. E o mais bacana de fazer essa série de matérias, é poder contar as particularidades de cada dia.

Depois dessa introdução, vamos ao que interessa! Se o tema escolhido para este ano foi: nossa voz, nosso poder, o terceiro dia não poderia ter sido finalizado de outra maneira. Não há ninguém melhor para simbolizar essa frase do que Elza Soares. Uma verdadeira diva, sei que o termo está banalizado hoje em dia, mas diva e rainha, são adjetivos que cabem perfeitamente a cantora carioca.

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Mesmo aos 81 anos de idade, a sua voz rouca e grave continua potente. E ela não se cala! Por conta de problemas de saúde, a artista realizou sua apresentação sentada, porém isso não a impediu de animar a galera, que já estava cansada e com frio, devido a chuva que caiu no início da noite deste sábado (15). Afinal, Elza subiu ao palco às 2h10 da madrugada.

Entre uma canção e outra, ela falava: “Eu quero gritos, vamos acordar quem tá do lado”. Elza é o maior símbolo, na música, contra o preconceito racial, a violência contra a mulher e a valorização do gênero na sociedade. Não é por acaso que o nome do seu último trabalho é: “Deus é Mulher”.

Em cada música, o telão ao fundo mostrava ora imagens da carreira de Elsa, ora a opressão a mulher e a todos que não se encaixam no “padrão” social. Durante a apresentação, a cantora relembrou parcerias da carreira. Após cantar “O Tempo não Para”, de Cazuza, Elza tocou na sequência “Milagres”, composta pelo então líder do grupo Barão Vermelho, e gravada com o próprio, em 1985. A artista também lembrou Cássia Eller, em “Nós” e Pitty na bela canção “Na Pele”, música gravada com a baiana no ano passado. A carioca, além de cantar um pouco da sua história, também mostrou músicas dos projetos mais recentes. Se provando, mais uma vez, a frente do seu tempo, esses dois últimos álbuns provam que a cantora está sempre disposta a se reinventar e atenta aos novos sons. Com toques eletrônicos, uma base de guitarra e samba, Elza fechou a noite com “Maria da Vila Matilde”. A Rainha foi ovacionada e reverenciada pelo ótimo público, que aguentou firme até às 3h30 da manhã.

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Muito mais que justo, a sambista encerrar as atividades do dia, mas não era essa a programação. Por conta da chuva do dia anterior, o palco dois não pôde ser utilizado, fazendo com que line up fosse alterado. Essa adaptação fez com que todas as performances fossem realizadas em um único palco, logicamente diminuindo o tempo de apresentação dos artistas, que tocaram entre 50 minutos e 1h10 cada. Aí entra mais uma vez, o maior nome do festival, Elza, que iria se apresentar às 19h, se ofereceu para fechar a festa. Certamente, nomes como Marcelo D2 e Karol Conka poderiam ter essa responsabilidade, no entanto, não foi isso que aconteceu.

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Mas o dia teve muito mais! BaianaSystem me surpreendeu. O grupo faz uma mistura eletrizante. A sonoridade, composta por uma guitarra baiana, instrumento criado na Bahia, na década de 40, somada a guitarra base, ao eletrônico, que nos remete a década de 80, a bateria e a musicalidade baiana, fazem o grupo criar o seu próprio som. Toda essa energia foi despejada no palco e contagiou o público. Os meninos incendiaram o Timbre, com músicas dançantes e mensagens como: “Respeito as Minas” e “Bolsonaro já mais”. O vocalista foi literalmente para a galera na última canção.

Antes dos baianos, a força da mulher negra foi representada por dois nomes. Karol Conka e Drik Borges. Karol Conka levou muitos fãs ao festival. Estava bem próximo de alguns, que cantaram com a curitibana do primeiro ao último verso. Muito animada, a rapper, brincou e colocou a massa para dançar. Com letras fortes, a cantora chegou para representar a mulher, especialmente, a negra. Na mesma linha, porém mais dócil, a MC Drik Barbosa, conseguiu deixar sua mensagem sem tanta agressividade, mostrou sua poesia, deixando que o público enxergasse o seu sentimento. A Drik é mais agradável de escutar, a música em si, é mais trabalhada. Fico triste por não ter conseguido falar com ela, mesmo a jovem estando ao meu lado. A artista tirou foto com os fãs, mas infelizmente, não me concedeu entrevista. Tomara que possamos nos encontrar em outro momento.

Entre as duas cantoras, Marcelo D2 se apresentou ao lado do filho Stephan. Eles não focaram no novo trabalho de D2 “Amar é Para os Fortes”. O músico homenageou Mr. Catra, que faleceu há uma semana em decorrência de um câncer. Ele começou a sua apresentação com: “Vai Começa a Putaria”.

A performance de D2 ao lado do filho foi mais uma releitura de sua carreira, por muitas vezes, o jovem não cantava. O curioso é que eles se enrolaram na letra de “Lodeando”, música que os dois cantam juntos há quase 15 anos. Até o segurança do evento estava animado com D2, ele gritava: “Mantenha o Respeito”, claro que o sucesso do Planet não poderia faltar, mas foi em uma versão diferente. O tradicional “Vamo fazer barulho, não faltou. Como o show foi repleto de hits, o público adorou, cantou junto e ao som de “Qual é”, o músico se despediu da plateia.

Instagram: @lagumoficial

Quem abriu passagem para as rappers foram os mineiros do Lagum. Junto com eles, veio a chuva, que não desanimou os fãs da banda, composto principalmente pela galera jovem, que pulou o show inteiro e reclamou por conta do tempo da apresentação ser reduzido. Lagum tem muito de Los Hermanos, tanto nas composições quanto nas músicas. Com letras fáceis e que falam de amor, os mineiros tem tudo para ficar cada vez mais conhecidos.

Se o pop rock foi representado pela nova geração, o hardcore e o punk, por sua vez, marcou presença com grandes nomes do cenário nacional. Uganga e Clemente (Inocentes) quebraram tudo! Ugunda tocou músicas que marcaram sua trajetória de mais de 20 anos Com letras com contexto histórico como é caso da canção “Campo”. Ao convidar Clemente para subir ao palco, eles celebraram e relembraram sucessos do punk nacional da década de 80, onde músicas dos Inocentes como: “Aprendi a Odiar” e “Pátria Amada” foram relembradas. Essa vibe de canções que buscam passar a mensagem de resistência ao sistema falido continuou e, ao som de “Até Quando Esperar”, sucesso da Plebe Rude, eles fizeram a massa sair do chão.

Já falei de muita gente, mas eu preciso destacar quem abriu a festa. Porcas Borboletas fizeram uma apresentação com muita energia, muito performáticos e, visivelmente em êxtase por estar tocando em casa para aquele mar de gente, a banda se divertiu. Pulou e deitou no palco. Subiu e desceu a rampa foram para os braços do povo e mostraram grandes sucessos nesses quase 20 anos de estrada.

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Esse foi um pouco do que rolou no terceiro dia do Festival Timbre, variedade de estilos, muita qualidade musical, alguns contratempos, muita chuva e apenas uma mensagem: amor, respeito e liberdade.

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