Contar uma história na qual a personagem principal tem uma singularidade, nesse caso um tipo de autismo, não é fácil. É preciso ter muita sensibilidade, estudo e dedicação. Agora, imagina transmitir essa mensagem de forma emocionante, divertida e leve, mas ao mesmo tempo, difundir a informação sobre um tema muito pouco explorado e que boa parte da população desconhece, torna o trabalho ainda mais árduo, não é mesmo?. Por conta dessa dificuldade, o espetáculo “O Som e a Sílaba” gera em mim uma grande expectativa. Essa minha vontade de assistir a peça é ainda maior por se tratar de um musical, além é claro, de ter um elenco de peso.
Quem quiser conferir essa história não pode perder tempo e já deve garantir o seu ingresso. “O Som e a Sílaba” chega a Uberlândia, neste final de semana, para duas apresentações, no Teatro Municipal. No sábado (29), o espetáculo começará, às 20h30, e no domingo, às 19h.

A peça, escrita e dirigida por Miguel Falabella e protagonizado por Alessandra Maestrini e Mirna Rubim, acaba de conquistar o prêmio de Melhor Roteiro Original, na 6ª edição do Prêmio Bibi Ferreira, além de ser indicada em outras categorias: melhor atriz (Alessandra Maestrini) e melhor musical brasileiro.
E nessa semana premiada, tive o prazer de entrevistar a talentosa e divertida Alessandra Maestrini. Conhecida do grande público por sua personagem em “Toma Lá Dá Cá”, quando interpretou Bozena. Além deste papel que lhe deu visibilidade nacional, a atriz já emprestou seu talento para o teatro e o cinema. Mas se engana quem acha que o dom de Alessandra se limita a interpretação. Ela também se destaca por ser uma excelente cantora, com discos lançados e prêmios ao longo da carreira.
Na entrevista, Alessandra Maestrini, falou sobre sua relação de carinho, respeito e admiração com os amigos Miguel Falabella e Mirna Rubim, além, de contar um pouco dos bastidores do espetáculo. Como foi construída a personagem Sarah? Qual a diferença que há entre trabalhar com um musical no teatro e realizar uma performance ao vivo? Foram algumas perguntas respondidas pela atriz. Confira a entrevista na integra.

Esse não é o primeiro trabalho com o Miguel Falabella. Gostaria de saber: como é trabalhar com ele? Um artista, assim como você, completo e que desempenha diversas funções. Qual a diferença de trabalhar com ele na televisão e no teatro?
– Miguel é um ser de LUZ. Luz imensa e generosa. Conviver com ele é um privilégio, uma alegria, uma diversão extrema e um aprendizado incomensurável. A maravilha do teatro é que temos mais tempo para “brincar” e “mergulhar” juntos. Mais tempo para criar e aperfeiçoar cada escolha.
Como surgiu o convite para o atual espetáculo?
– É a segunda vez que este gênio, que tanto admiramos e tanto nos inspira, este amigo que tanto amo, me apronta uma bênção dessas! A primeira vez que Miguel Falabella escreveu algo para mim, mal nos conhecíamos. Foi a Bozena “Lá de Pato Branco”, de ‘Toma Lá Dá Cá’, que todos conhecem.
Ele ficou encantado com meu trabalho na peça “Mamãe Não Pode Saber”, de João Falcão, que eu protagonizava ao lado de Lázaro Ramos, Drica Moraes, Mimi Barros e Vladimir Brichta e, por conta disto, criou um personagem que não existia ainda no seriado, só para me integrar ao elenco.
Desta vez, mais de uma década de amizade e me conhecendo mais a fundo, este homem LUZ escreveu uma peça inteira comigo em mente. Pergunta se estou babando de amores e de alegria?
Mirna Rubim, além de ser uma das solistas de maior destaque do meio operístico nacional, é a preparadora vocal mais requisitada do país. Um ícone da técnica vocal! Ela prepara boa parte dos protagonistas e elencos, tanto dos musicais de grande porte quanto do mercado da ópera.
Miguel estava sendo preparado por ela para algum musical, não lembro qual. Ele chegou cedo e me pegou terminando uma aula e cantando o vocalise à capela que inicia a Ária dos Sinos, de Lakmé. Ficou absolutamente inconformado porque o público me conhecesse só pelas “palhaçada na TV” e disse que iria escrever uma peça para esta voz e esta cantora de ópera, que “não pode ficar escondida do púbico.”
Em 2016, ele me assistiu fazendo “Yentl em Concerto” e viu à Mirna na peça. “Paradinha, Cerebral”, pronto! Ele teve a certeza de qual seria o enredo. Escreveu para nós, um espetáculo justamente da relação “professor-aluno” (a Arte imita a Vida), através de uma trajetória tão cheia de humor quanto de delicadeza e profundidade. É, realmente, um deleite absoluto!
Foi quanto tempo entre ensaios e a estreia?
– Em matéria de dias, foi um mês não continuo de ensaios, que resultaram em período de dois meses de duração.
Qual a principal dificuldade de trabalhar em um musical?
- Não diria dificuldade, mas atenção. É preciso uma disciplina férrea. E, no caso deste musical, não só de estudos vocais, mas também, em relação aos horários das refeições para não causar refluxo com a pressão do diafragma, por conta do canto operístico.

No espetáculo, você contracena com outra grande artista, Mirna Rubim, como foram os ensaios? Como vocês estabeleceram uma sintonia? Teve alguma situação engraçada e diferente durante os ensaios que você possa compartilhar?
– Mirna e eu nos conhecemos há mais de 10 anos. O espetáculo parte desta sintonia. A maior parte dos ensaios acontecia com Miguel. Ele dava a direção exata do que queria, depois, corrigia para estarmos em plena sintonia com o que ele tinha em mente. Mas em meio a isto, Mirna e eu ensaiamos bastante sozinhas. Ela como diretora musical residente e eu como diretora residente.
Por nos conhecermos muito bem e, porque somos três palhaços, todos os dias gargalhávamos MUITO durante o processo de ensaio, um pegando no pé do outro e, assim, espichando e multiplicando nossos limites de realização. Mas, o que se dizia durante os ensaios, não posso repetir em uma entrevista (risos)… Muito íntimo. A gente se conhece MUITO!!! O que posso contar é uma brincadeira que Miguel costuma fazer e que já é conhecida. Atirar sapatos (sem mirar na pessoa, claro) quando não gosta de algo (risos).
Esse não é o primeiro espetáculo musical feito para você. São temáticas diferentes e a preparação também, qual a principal diferença de preparação entre esse atual espetáculo e o anterior, Yentl em Concerto?
– “7 — O Musical” também havia sido escrito especialmente para mim, por Charles Möeller, Claudio Botelho e Ed Motta. Mas, já faz um tempinho (risos). Foi em 2007. Já minha “última” apresentação de “YENTL em Concerto” foi em maio de 2017. A adaptação do filme musical para o palco é minha, tanto no roteiro quanto na concepção estética, direção e produção. Então, faz pouquíssimo tempo desde que subo no palco em um musical talhado para mim… por mim. O CD do espetáculo recebeu, no ano passado, o Prêmio da Música Brasileira como Melhor Álbum em Língua Estrangeira, o que me orgulha muito. Aliás, está a venda na minha página oficial do facebook, OK? kkk…
A principal diferença de preparação entre “O SOM E A SÍLABA” e todos os outros musicais que já fiz, é a presença do canto lírico, que exige outra disciplina, como mencionei anteriormente. E também o fato de que lidamos com um assunto que exige tanta responsabilidade: o savoir fair. Para que chegue ao público leigo com muito sabor e muito charme e, ao mesmo tempo, chegue ao público entendido com respeito, fazendo com que se sintam representados.
Estudamos muito sobre a Síndrome de Ásperger (sob orientação do próprio Miguel) e eu tive um encontro pessoal, um divisor de águas, com Júlia Balducci, jovem cineasta portadora da Síndrome de Ásperger.
Agora, falando de espetáculos escritos para mim, o que foi mais diferente neste, é que Miguel foi escrevendo aos poucos e lendo com a gente cada parte já escrita e mexendo nela, readaptando até ficar do jeitinho que ele queria. Ouvia a nossa embocadura e como soava para ele, reescrevia… Um processo muito muito muito especial de acompanhar um gênio em plena criação e participar intimamente da geração da obra, como instrumento, tessitura e mesmo batendo bola.
Em o “Som e a Sílaba”, você interpreta uma personagem com um tipo de autismo, ou seja, uma personagem que faz parte de uma minoria, como você estudou essa característica específica e construiu sua personagem?

- Li muito, vi filmes, séries, vídeos, depoimentos de autistas famosos e sites criados pelos próprios autistas. Meu maior aprendizado foi conhecer pessoalmente a Julia Balducci, cineasta portadora da síndrome de Asperger.
Eu sou essencialmente sinestésica. O que significa que meu aprendizado pela empatia é muito superior ao visual, teórico ou mesmo auditivo. Conhecer, conversar e, assim, poder sentir a Julia de perto, me fez finalmente sacar mais do mundo interior de “Sarah”: seus anseios, medos, desejos, charmes… E como transparecer tudo isto para o público leigo ou “neurotípico”. E tudo isto apresentado de maneira tão espirituosa, como é próprio do Miguel e meu, e mesmo da Mirna, com sua personagem Leonor Delise, a professora de Sarah… E ainda com direito às músicas mais lindas…. Ah! É irresistível.
Como cantora, como você preparou sua voz para esse espetáculo?
- Para todo tipo de expressão vocal, eu parto primeiro da saúde vocal. Então parto de exercícios de fono, que eu adapto em linhas musicais, para saber que meu instrumento de expressão está em sintonia com meu organismo. Uma vez isto estabelecido, vem à escolha estética. Daí, acrescento os “vocalises” do canto lírico e, em seguida, treinos e mais treinos sozinha, com Mirna e com coach musical de ópera… Tudo para estar o mais fiel ao que, não só o estilo de cada ária de ópera exige como o que cada cena sugere, já que a personagem tem uma trajetória de evolução na sua entrega emocional quando interpreta cada ária. Não é a Alessandra Maestrini que está cantando com toda sua emoção e entendimento. É Sarah Leigton que, pouco a pouco, passo a passo, vai ganhando asas nos terrenos do subtexto e da conexão emocional com o próximo.

Qual a principal diferença entre cantar em cena e em um show ao vivo?
– Exatamente o que citei acima. Quando você canta como personagem quem faz as escolhas estéticas é a personagem. Quando você canta num show simplesmente, você simplesmente se expressa. As escolhas são as da sua alma. No teatro as escolhas estéticas partem da alma da personagem.
Tem algo que você gostaria de acrescentar e, por ventura, deixei passar?
– O tema central desta peça é, na verdade, o quanto é importante a gente dar asas ao “diferente”. E dar força aos nossos sonhos mais loucos. Tanto em nós quanto no outro. E é por isto, que todo mundo se identifica com o humor cúmplice, tão característico do Miguel em tudo que ele escreve, tanto na tv quanto no teatro. Fala sobre quanto à graça da vida está justamente em pensar fora da caixa e em ser quem a gente é, ser quem a gente sonha, ser quem a gente veio pra ser e tudo o que a gente pode ser neste mundo.
Tem uma hora na peça em que a professora (Leonor) diz para a aluna (Sarah): “Você não pode fazer isto. Você não pode dar um passo maior do que a sua perna.” E a Sarah responde: “E desde quando você conhece o tamanho da minha perna?” e vai lá e faz o que ela quer.
Pois você acredita que, muitas vezes isto foi dito para o próprio Miguel, e ele respondeu assim? E é só por isto que ele é hoje quem ele é: este SOL!!! Porque ele não deixou que cortassem as suas asas. A peça é hilária, emocionante e transformadora. É Miguel Falabella mais presente do que nunca!
Nosso relato mais comum na saída do espetáculo é de pessoas que acharam que não iriam gostar. Só porque ouviram as palavras “autismo” e “ópera”. Elas esquecem que quem escreveu e dirigiu foi o rei do humor cúmplice, por quem somos apaixonados. Pois estas mesmas pessoas, depois voltaram (e eu não estou exagerando) 10 vezes para ver. Muita gente vai depois até em outra cidade para assistir de novo. Estamos voltando para São Paulo ano que vem a pedidos e Miguel vai transformar a peça em filme internacional. Seja esperto e venha ver como tudo nasceu.
E pra finalizar, gostaria que você deixasse um recado para o público e o que ele pode esperar do espetáculo.
- O público pode ter a certeza de que vai se divertir e se emocionar com a história que Falabella criou. Vai mergulhar conosco e sair encharcado de alegria, empatia e encantamento.
Depois de uma entrevista como esta, você não pode deixar de conferir este espetáculo. Se antes, já estava com uma expectativa positiva, agora então isso se multiplicou. Nos encontramos lá!
Serviço:
Pontos de venda:
Os ingressos estão sendo vendidos nos valores de R$80 (inteira) e R$40 (meia) e podem ser encontrados nas lojas Provanza do Uberlândia Shopping e Center Shopping, no Bouclé Salon e no site www.megabilheteria.com.
FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Miguel Falabella
Elenco: Alessandra Maestrini e Mirna Rubim
Design de luz: Wagner Freire
Design de som: Mario Jorge Andrade
Figurinos: Ligia Rocha e Marco Pacheco
Visagismo: Wilson Eliodorio
Cenário: Zezinho Santos e Turíbio Santos
Artes
Fotografia: Priscilla Prade
Diretor de criação: Marco Griesi
Designer: Kelson Spalato
Criação: TuaAgência
Operador de luz: Alessandra Marques
Operador de som: Mario Jorge Andrade
Cenotécnico: Isaac Tibúrcio
Camareira: Michele Vono
Assistente de produção e contrarregra: Marlon Bandarz e Eduardo William
Produtora assistente e captação de apoios: Carla Schvaitser
Produtora executiva: Marisa Medeiros
Direção de produção: Deco Gedeon
Realização: Maestrini Produções

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