Atualização da Norma Regulamentadora nº1 do Ministério do Trabalho reforça prevenção dos riscos psicossociais e amplia debate sobre saúde mental nas empresas

NR-01 fortalece a responsabilidade das organizações na promoção de ambientes psicologicamente seguros; na Unimed Uberlândia, Programa Acolher integra a estratégia de Governança e ESG há mais de cinco anos

As recentes atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01), emitida e fiscalizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) do Governo Federal, colocaram a saúde mental definitivamente no centro das estratégias de segurança e saúde no trabalho. A partir da ampliação do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), as empresas passaram a dedicar atenção também aos chamados riscos psicossociais – fatores relacionados à organização do trabalho que podem contribuir para o adoecimento emocional, como excesso de demandas, conflitos interpessoais, assédio, pressão constante e falhas na comunicação.

Mais do que atender a uma exigência legal, especialistas destacam que a prevenção desses fatores representa um avanço na forma como as organizações cuidam das pessoas. A proposta da norma é estimular a identificação precoce dos riscos, a adoção de medidas preventivas e a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, favorecendo o bem-estar dos colaboradores e reduzindo impactos como afastamentos e queda na qualidade de vida.

Na Unimed Uberlândia, o movimento de ampliação do olhar sobre a saúde mental antecede as mudanças na legislação. Há mais de cinco anos, a cooperativa mantém o Programa Acolher, iniciativa voltada à promoção da saúde mental e ao acolhimento dos colaboradores. Agora, essa atuação ganha uma perspectiva ainda mais ampla, que combina ações de promoção da saúde, bem-estar e qualidade de vida com a análise dos processos, das relações e das condições em que o trabalho é realizado. A proposta é identificar fatores que possam gerar ou intensificar riscos psicossociais e, a partir dos diagnósticos, construir respostas de forma integrada entre diferentes áreas da organização.

À frente do Programa Acolher, a psicóloga do trabalho Bruna Santos Gonçalves destaca que o acolhimento individual é uma dimensão importante do cuidado, mas precisa estar associado a uma atuação preventiva e mais abrangente. Para ela, criar espaços seguros de escuta permite compreender as necessidades dos colaboradores e, quando necessário, direcionar o atendimento para o suporte especializado. “A saúde mental não começa quando a pessoa adoece. Ela começa quando o colaborador sabe que existe um espaço seguro para pedir ajuda, falar sobre suas dificuldades e ser acolhido sem julgamentos. Muitas vezes, uma escuta qualificada no momento certo é suficiente para acolher o sofrimento, orientar e indicar o caminho mais adequado. Quando necessário, realizamos o encaminhamento para atendimento especializado. Mais do que oferecer um serviço, buscamos construir uma cultura em que as pessoas se sintam vistas, respeitadas e cuidadas. Quando o colaborador percebe que a organização se importa genuinamente com seu bem-estar, ele também se sente mais seguro para buscar ajuda antes que o sofrimento se intensifique”, afirma a psicóloga.

O Programa Acolher permanece como uma das principais frentes dessa estratégia. Ao longo dos anos, a iniciativa ampliou sua atuação e passou a reunir acolhimento psicológico, oficinas, palestras, rodas de conversa, campanhas educativas, ações de descompressão e atividades de sensibilização para equipes e lideranças. As iniciativas buscam fortalecer o autocuidado, ampliar o diálogo sobre saúde mental e oferecer suporte aos colaboradores, enquanto a organização também avança na identificação e no enfrentamento de fatores relacionados à própria dinâmica do trabalho.

Em 2026, uma das prioridades da cooperativa foi ampliar o acesso dos colaboradores ao acolhimento psicológico e aproximar esse suporte da rotina das equipes. Paralelamente, a organização vem fortalecendo o diagnóstico dos fatores relacionados ao trabalho que podem impactar o bem-estar das pessoas. Essa combinação entre escuta, prevenção e análise das condições de trabalho busca favorecer intervenções mais precoces e contribuir para a redução do absenteísmo relacionado à saúde mental, indicador que já apresenta evolução positiva na cooperativa.

Para Luciene Aparecida Miranda Lemes Santos, da área de Gente & Gestão da Unimed Uberlândia, a gestão dos riscos psicossociais exige que a organização amplie a análise para além das ações individuais de cuidado e observe também os fatores presentes no cotidiano de trabalho. “Esse olhar nos convida a compreender como a organização do trabalho pode impactar as pessoas. Por isso, é um tema que precisa ser construído de forma integrada, envolvendo diferentes áreas e conectando diagnóstico, processos, relações, liderança, comunicação, reconhecimento e iniciativas de cuidado. Nosso objetivo é transformar as escutas e os dados em oportunidades concretas de melhoria, fortalecendo um ambiente de trabalho cada vez mais saudável e sustentável”, afirma.

Para Vanessa Cristina Silva, assessora de Governança e responsável pela Agenda ESG da Unimed Uberlândia, a inclusão do Programa Acolher na estrutura de Governança demonstra que a saúde mental deixou de ser uma iniciativa isolada para se tornar parte da estratégia institucional. “Quando a saúde mental passa a integrar a agenda estratégica da organização, ela deixa de ser vista apenas como uma ação de cuidado e passa a contribuir diretamente para a sustentabilidade do negócio. Ao integrar o Programa Acolher à estrutura de Governança, fortalecemos uma atuação preventiva, alinhada à gestão dos riscos psicossociais, à valorização dos colaboradores e à construção de um ambiente de trabalho mais saudável e psicologicamente seguro. Mais do que atender às exigências da legislação, acreditamos que cuidar das pessoas é um compromisso permanente e um dos pilares para o desenvolvimento sustentável da cooperativa”, afirma Vanessa Cristina.

Com a atualização da NR-01, a discussão sobre saúde mental no trabalho passa a envolver não apenas a oferta de apoio aos colaboradores, mas também a capacidade das organizações de reconhecer e atuar sobre os fatores presentes na própria organização do trabalho. Na Unimed Uberlândia, o Programa Acolher integra essa estratégia ao lado de iniciativas voltadas à análise de processos, relações e condições de trabalho. A proposta é avançar de uma atuação centrada apenas na resposta ao sofrimento para uma cultura de prevenção, escuta e melhoria contínua, em que o cuidado com as pessoas esteja associado à construção de ambientes mais saudáveis e sustentáveis.

Gustavo Lazzarini

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