Contar 62 anos de história, em duas horas, não é fácil. Fazer com que esta trajetória seja encenada de maneira leve, com doses certas de humor, drama e poesia, é ainda mais complicado. Por isso, a peça “Autobiografia Autorizada” de Paulo Betti é tão aclamada pela crítica.
Paulo mostrou ser um dos grandes da sua profissão, não apenas por conseguir entreter o público, mas também por ter a coragem de se expor e revelar passagens da própria vida, que muitos tentam esconder.

Claro, o espetáculo é baseado na trajetória do ator antes da fama. E para que esse trabalho fosse realizado, o cenário, simples, composto por um varal com roupas penduradas, um telão no qual passava fotografias, caricaturas e documentos que marcaram esta história, além de alguns objetos, como uma vela, um peão, uma faca, um criado mudo e o caderno de anotações do ator, juntamente com a trilha sonora, regida basicamente pelo sertanejo raiz, fizeram com que a plateia retornasse a década de 50.
A peça não segue uma ordem cronológica linear. Sendo assim, Paulo consegue mudar o ritmo do monólogo, intercalando momentos cômicos, com outros dramáticos e poéticos.
De origem humilde e sem recursos financeiros, o ator conta que é de uma família com 15 irmãos, sendo que ele foi o único a aprender a ler e escrever.
Um dos episódios lembrados pelo artista foi que uma de suas irmãs, que trabalhou como enfermeira, mesmo sem ter feito especialização, brigou com o médico que cuidava da Adelaide, mãe de Paulo, por este afirmar que ela não sobreviveria muito tempo. E por isto decidiu levá-la, mesmo em coma para casa.

Mas mesmo sendo uma passagem triste, o ator ressaltou que mesmo no fim da vida, a mãe estava deslumbrante e muito bem cuidada pela família. Ele até brincou que, em uma das ligações da irmã, ela disse: o médico que falou que a mamãe não aguentaria muito tempo, morreu antes dela, comemorou ao telefone.
O pai, Ernesto, sofria de esquizofrenia e tinha constantes crises. Porém, quando ele não estava internado, transava com minha mãe, brinca o ator em cena.
Na adolescência, já em Sorocaba, Paulo fala dos jogos de futebol e das transmissões de rádio na cidade, muito divertido, o causo que ele conta quando o Santos, de Pelé e Pepe, foi jogar lá.
Além destas histórias, outros episódios foram contados. O mais interessante é que, em certos momentos, Paulo conseguia relacionar trechos da peça com situações atuais, inclusive, envolvendo Uberlândia.
Apesar de o monólogo refletir a vida de Betti, no contexto geral, me fez analisar outras questões: como estão as relações familiares nos dias atuais? Por que está tão difícil consolidar um vinculo familiar? Por que as necessidades materiais, em sua maioria, são mais relevantes que os sentimentos? Por que o “eu” ficou mais importante do que o nós?

Quem puder conferir o espetáculo não se arrependerá. Ainda acontecerão duas sessões, uma neste sábado (4) e outra no domingo (5).

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