‘Molière- Uma Comédia Musical’ impressiona pelos detalhes, pelo elenco, pelo texto e pela mensagem…

As luzes se apagam e fecham-se às cortinas, esses são os últimos atos de um espetáculo. Simples, porém simbólico. Através do aplauso, o artista se alimenta e renova a sua energia. Com o propósito de levar emoções distintas a plateia, tais como: o choro e o riso. O teatro é capaz de promover, em um só momento, uma mistura de sentimentos que se confundem entre a alegria e a tristeza e entre real e o lúdico. Ao mesmo tempo em que busca entreter, ele também provoca e estimula a reflexão sobre temas pertinentes de uma sociedade.

Essa reflexão deve ser contínua, independente da época, a arte, de um modo geral, se contrapõe aos padrões inadequados, levanta discussões sobre assuntos adormecidos ou, simplesmente esquecidos e, até ignorados por uma sociedade. Toda expressão artística tem embutida nela, um grito de liberdade. No entanto, simultaneamente, a arte tem o importante papel de manter a história viva. Ela nos alerta sobre momentos históricos que podem se repetir. Por isso, a cultura e a arte de um povo tem que ser preservada e alimentada. Sempre que as cortinas estiverem fechadas e as luzes apagadas, o silêncio de um povo é gritado.

Foto: Gabriela Soares

A arte, em sua essência, está presente no espetáculo “Molière- Uma Comédia Musical”, que segue em cartaz no Teatro Municipal, em Uberlândia, neste final de semana. Sábado, às 20h30 e domingo, às 19h.

Foto: Paulo Uras

Apesar de nos remeter ao momento atual, Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi, idealizadores da peça, não faziam ideia que a história de Molière teria o significado e representatividade que tem, neste momento. Isso porque, os dois atores conheceram o texto de, Sabina Berman, em 2010, durante viagens pela América Latina. Naquela época, eles pensavam: “Ela fala da gente, de alguma maneira, ela divide com o público o que a gente é. Faz com que o público nos veja de uma forma mais humana e não idealizada, que a gente é de carne e osso”, comentou o ator após o espetáculo.

Foto: Gabriela Soares

Concordemos, o mundo mudou em oito anos, sendo assim, o que já era representativo e simbólico em Molière potencializou. Um artista que amava, acima de tudo, sua liberdade e que combatia a burguesia, a qual conhecia tão bem, utilizando em seus textos um humor ácido e inconfundível. Essa liberdade artística está em pauta e sobre este assunto, Elcio Lamentou. “Têm coisas que estão na peça, mas não se destacavam tanto. Como a censura, por exemplo. Esse tema veio à tona, em 2018. A vontade de censurar e de cortar a liberdade de expressão, nesse contexto, tem o preconceito com o artista, que é uma bobagem, a gente tem uma vida super difícil”, destacou o ator.

Agora, entrando no espetáculo, Elcio e Renato chamaram o diretor, Diego Fortes, para comandar esse projeto. Após assistirem a peça “O Grande Sucesso”, Além de Diego, a banda do espetáculo também se juntou ao grande elenco de “Molière- Uma Comédia Musical”.

Foto: Gabriela Soares

Contar a história do teatro estando no palco, é um trabalho muito complexo, de atenção e concentração absoluta de todo o elenco. Mas quando este ofício é praticado com amor, prazer e dedicação, pode até parecer fácil. “Maravilhoso”, é assim que Matheus Nachtergaele descreve seu atual trabalho. O ator foi indicado ao Prêmio Shell, deste ano, por sua performance como Molière. Mas além dele, outros companheiros de cena, poderiam ser indicados. Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi, Racine e o Arcebispo Péréfixe respectivamente, só para ficar em alguns nomes.

O Espetáculo “Molière- Uma Comédia Musical”

A história mostra a rivalidade entre Molière (Matheus Nachtergaele) e Racine (Elcio Nogueira Seixas ), dramaturgos geniais, porém com estilo e forma de entretenimento divergente. Enquanto Molière presa pela comédia e pelo riso, Racine, na contramão, aprecia o drama e o sofrimento. O que torna essa história ainda mais envolvente? É que Molière e Racine são mestre e pupilo, respectivamente. O conflito se da, não somente, pelo gênero teatral, mas também pelo apreço e atenção da corte e, principalmente do rei Luiz XIV, da França, do século XVII.

O espetáculo se desenvolve entre narrativas, comandas por Racine e as histórias de Molière. Essas narrativas buscam ilustrar um fato, intensificar um ato futuro ou, simplesmente demonstrar um pensamento ou sentimento.

Nesse contexto, as histórias de Molière são encenadas. De forma em que as suas peças, se confundam com a sua própria trajetória, fazendo com que a plateia se prenda a cada detalhe. Aquela famosa frase: a arte imita a vida e a vida imita a arte, pode ser uma das definições deste espetáculo.

Foto: Gabriela Soares

Amores, luxuria, alegria, desprezo, euforia, ódio, rancor, mágoa e perdão se misturam no texto, de tal forma, que a plateia fica aflita, mas ao mesmo tempo, se diverte com as caras e bocas de Molière e com as intervenções do rei Luiz XIV (Nilton Bicudo), sempre hilárias e com um desfecho, digamos atual. Já que temos o mocinho, temos o vilão, essa personagem é o Arcebispo Péréfixe (Renato Borghi), brilhante em cena! O experiente ator conseguiu transmitir todo o poder da igreja naquela época. Ao seu mero prazer, o Arcebispo controla a população e manipula Racine, tudo para se sentir mais poderoso na corte francesa. Mas tudo isso, com uma pitada de humor, claro! Irei fazer um adendo, quem quer controlar uma nação, não quer uma população crítica, pronto falei!

Mas além dos conflitos ideológicos, há romance. Dentre os vários amores de Molière, a bela Armande (Débora Veneziani) prende mais atenção da personagem principal, pois a jovem tem os mesmos princípios de liberdade. Essa relação controversa é contada de uma forma divertida.

Foto: Gabriela Soares

Não poderia deixar de mencionar a trilha sonora, afinal, estamos falando de um musical. O Tropicalismo combinou bem com o contexto, por sua relevância histórica e colaborou com a energia e a liberdade do “Molière tupiniquim”.

Eu disse no começo deste texto que o espetáculo tem toda a essência da arte, acredito que a tragédia e comédia caminham lado a lado, alguma hora, elas se encontram. Algumas vezes vamos rir de alegria, outras de desespero. O espetáculo é imperdível! Pela história, pela narrativa, pelo elenco, pela música, pela mensagem de resistência e pelo caráter reflexivo.

Mais destaques:

Uma produção que reuniu 15 pessoas em cena, entre músicos e atores, precisa ser destacada. O cenário que nos remete a França, do século XVII, mostra sempre o rei em uma posição superior, na maioria das vezes, ele fica em local como se fosse um camarote. O teatro era utilizado como forma de entretenimento. Era valorizado conforme a vontade do rei e, de acordo com ela, a arte teria prosseguimento. O teatro com um palco pequeno e um letreiro luminoso chamava a atenção e se confundia, logicamente, com a vida do protagonista.

O figurino com roupas extravagantes, cumpridas, com perucas e maquiagem são de uma riqueza de detalhes que impressionam. Imagino o calor que os atores sentiram em cena. Nesse quesito, Elcio ainda se superou, além das roupas, o artista teve que aprender a andar de salto, parabéns!

Serviço:

Molière — Uma Comédia Musical de Sabina Berman

Classificação indicativa: 16 anos

Duração: 120 minutos

Data: 6 e 7 de outubro

Horário: sábado às 20h30 e domingo às 19h

Ficha Técnica:

Texto: Sabina Berman

Tradução: Elcio Nogueira Seixas e Renato Borghi

Adaptação: Diego Fortes e Luci Collin

Direção: Diego Fortes

Elenco: Matheus Nachtergaele, Elcio Nogueira Seixas, Renato Borghi, Nilton Bicudo, Rafael Camargo, Luciana Borghi, Georgette Fadel, Regina França, Marco Bravo, Débora Veneziani, Edith de Camargo, Fábio Cardoso, Maria Fernanda e Beatriz Lima | Cenografia: André Cortez

Figurino: Karlla Girotto

Direção Musical: Gilson Fukushima

Iluminação: Beto Bruel e Nadja Naira

Assistente de Direção: Carol Carreiro

Fotos: Eika Yabusame, Jamil Kubruk e Luísa Bonin, Paulo Uras — Estúdio FB

Direção de Produção: Camila Bevilacqua e Fioravante Almeida I

Coordenação de Produção: Luís Henrique Daltrozo (Luque)

Idealização: Teatro Promíscuo, Flo Produções e Lady Camis

Produção: Daltrozo Produções

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