Sabe aquela entrevista que a gente fica nervoso? Pois é, assim eu estava poucos minutos antes de entrar em contato com Bigode, fundador de um dos grupos mais importantes da música brasileira, Os Originais do Samba.

Logo esse nervosismo foi embora, no horário marcado, entrei em contato e, com uma voz alegre, ele pediu para ligar em 20 minutos, motivo: estava pintando o cabelo e iria tomar banho. Mas antes de desligar, o músico brincou, “pode ligar, não esquece”. Passado esse tempo, liguei novamente e já preparado, conversamos e rimos por mais de 40 minutos.
O sambista tem uma vida dedicada a música, são 57 anos de palco. Hoje, com 77 anos de idade, se mantém em forma e esbanjando alegria, simplicidade, humildade e com a vontade de levar seu legado para os quatro cantos do mundo. Essa trajetória de mais de meio século chega a Uberlândia na próxima quinta-feira (18), no Teatro Municipal, ás 21h.
O instrumentista tem muito a ensinar para essa nova geração de ídolos virtuais. Mesmo com tanta bagagem e uma carreira consolidada, ele nos atendeu para termos um contato, uma troca de experiências para que ele sentisse a energia de um fã. O músico é aberto a compartilhar histórias e a receber o carinho do público. Essa energia o faz estar no palco todas as noites.
O líder dos Originais do Samba não precisaria perguntar se eu gostaria de conhecê-lo após a apresentação para conversarmos pessoalmente. Para mim será uma honra continuar essa conversa gostosa, recheado de lembranças, risadas e saudades.

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Bigode é o único integrante original do grupo carioca, formado no início da década de 60. Os Originais do Samba, nessa época era composto por: Mussum reco-reco, voz, Bidi — cuíca, voz, Chiquinho — ganzá, voz, Lelei — tamborim, voz, Rubão — surdo, voz e ele no — pandeiro, voz. Todos os ex-companheiros relembrados com muito carinho durante a entrevista.
Os ingredientes se conheceram nas escolas de samba, Bigode naquela era passista da Imperatriz Leopoldinense, mas há muitos anos ele samba pela Salgueiro.
Bigode é sambista desde que nasceu, tocou com outros músicos, até integrar os Originais do Samba, em 1966. Com instrumentistas talentosos e um estilo único, com canto coletivo, o grupo começou a se destacar na noite carioca e era presença certa nas casas de show. Esse sucesso chamou a atenção dos empresários e de grandes artistas.
Elis Regina foi uma das artistas que se encantou com o sexteto. O novo som dos passistas fez com que uma das maiores vozes da Música Popular Brasileira (MPB) os convidasse para uma turnê e juntos, em 1968, venceram a 1ª Bienal do Samba com a canção “Lapinha”.

No ano seguinte, eles gravaram “Cadê Tereza”, do Jorge Ben. E explodiram! Começaram a participar de programas de rádio e televisão, ganharam disco de ouro e, por uma obra do destino, ainda no início do sucesso, fizeram da imagem visual uma marca da banda.
Bigode não gostou de um comentário que escutou dizendo: Os Originais do Samba não sabem se vestir. Incomodado com o que ouviu, o artista convenceu os outros integrantes do grupo a padronizar o estilo nas apresentações. “Nós nunca mais repetimos uma roupa. Nosso guarda roupa é bem cheio naquela época”, brincou bigode.
Outra característica marcante dos sambistas era a interação com o público com brincadeiras, coreografias, caras e bocas que animavam os fãs. Muito dessa diversão no palco se dava por conta do Mussum, que deixaria o grupo pouco tempo depois para se dedicar aos Trapalhões.
Bigode contou que Mussum sempre foi criativo, inteligente e espontâneo. Ele define o amigo como “gênio”. O instrumentista nos falou que Mussum criou o reco-reco, o vocalista do grupo ressalta que o instrumento tocado pelo comediante foi construído e idealizado pelo próprio Mussum.
Ele também ajudava muito nas coreografias. Não bastasse tudo isso, o ex-trapalhão levou para o palco aquele jeito peculiar de falar. Muito extrovertido e brincalhão, o comediante começou a brincar com o jeito de falar do empresário da banda. Ele percebeu que todos gostavam daquelas brincadeiras, principalmente as crianças. E fez desta particularidade sua marca registrada.

Por outro lado, Bigode gosta de destacar o amigo em outro viés. Sabedor de como é a vida artística, Mussum nunca se iludiu com os holofotes, era um homem que valorizava a família e era exigente com os filhos em relação aos estudos.
Depois desse adendo, voltemos a falar da história riquíssima dos Originais do Samba. Na década 70, eles continuaram a Lançar hit atrás de hit e, durante muitos anos acompanharam Jair Rodrigues. No entanto, no final desta mesma década, Os Originais do Samba decidiram rodar o país sozinhos.
Nos anos 80, lançaram “Canta Meu Povo, Canta”, outro grande sucesso. Na década seguinte, Bigode manteve o fôlego e com mais formação, os Originais do Samba continuaram a levar o Samba, a marca do Brasil, mundo afora.
Há 24 anos o grupo é composto por: Bigode do Pandeiro, Juninho, Rogério Santos e Marcos Scooby. Em 2017, Os Originais do Samba lançaram seu último trabalho, chamado “Ontem, Hoje e Sempre”.

Curiosidade
Os Originais do Samba são um patrimônio artístico e cultural do país. Essa importância está registrada na Enciclopédia Brasileira da Música Popular Brasileira e Clássicos do Samba.
Eles tocaram também com Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Toquinho, Martinho Da Villa, Elza Soares, dentre tantos outros.
Histórias
Nesse longo bate papo, claro causos engraçados não faltaram, vou destacar três: Em uma das passagens pela Europa, em um desses países gelados, Bigode lembrou do dia que quebrou o dente ao sair do restaurante após escorregar no gelo, também aqueles sapatos chiques.
Acostumado comer arroz, carne e ovo, se deparou com um arroz com abacate, que comeu, mas achou estranho o gosto.
Ah, não posso esquecer da vez que ele pegou um “avião particular” de São Paulo para o Rio de janeiro. Além de tudo é corajoso, a ponte área que fez só vendeu 4 passagens, os outros três que seriam companheiros de voo de Bigode tiveram medo e não embarcaram. Imagina só
Com grandes sucessos e regravações de músicas famosas ao ritmo do samba raiz Essa turnê chega a Uberlândia para uma noite inesquecível, de nostalgia, alegria e muito do melhor samba brasileiro.
Serviço
“Originais do Samba”
Data: 18 de julho (quinta-feira)
Hora: 21h
Local: Teatro Municipal de Uberlândia
Ingressos: R$50 (inteira) e R$25 (meia)
Pontos de venda: Lynx ÓPtica (avenida Getúlio Vargas, 1655 — Tabajaras) e no site megabilheteria.com
Mais informações: 9 9866–1727.

Bons tempos, muita gente boa no palco e na platéia, mesmo que pela televisão ou ouvindo LP na vitrola.
Eternos, OS ORIGINAIS DO SAMBA!!!!
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