Você não gosta
Diz que não faz diferença
Que não tem tempo
Mas sempre escolhe um lado.
Não adianta me defender
È desnecessário
Eu controlo tudo
E você fica exausto.
Eu estou em toda parte
Desde o dia que você nasce
Até o dia que você se vai
Eu sou responsável pela sua criação
Pelo seu desenvolvimento
Por suas dores
E pelos pequenos delírios de felicidade
Mesmo que indiretamente
Você vai compreender.
Eu estou nos quatro cantos do mundo
Eu criei as estruturas e os sistemas que você conhece
Eles podem ser diferentes
Mas todos são:
Desiguais
Desumanos
Excludentes
Preconceituosos
Doutrinadores
Padronizados
E egocêntricos.
Não me misturo
Apenas me adapto ao ambiente
Afinal como citei:
Criei várias estruturas
Mas vou focar na democracia
Contudo não me esquecerei das minhas inúmeras facetas
Que, por ventura, podem ser citadas
Tá ok?
Posso ser de esquerda
Direita
Centro
E suas variantes
Posso instaurar a ditadura
Fingir ser democrática
Facilitar o comunismo
Alimentar o capitalismo
E ter a pompa da monarquia
E, ao mesmo tempo,
Provocar guerras
Selar acordos
E falar sobre a paz
Faço conforme achar conveniente
Sou manipuladora.
Faço uso do pão
Do circo
Da arte
Do esporte
Mas principalmente da fé.
Ela é poderosa
Tem um lugar de destaque
As religiões!
Podem fazer bem
Mas me sustento na sua pior face
Podem ter certeza!
Elas são diferentes
Mas tem papel fundamental
Manter o rebanho controlado
E assim sigo jogando.
Com muitos sucessos para mim
E milhares de fracassos para vocês.
Posso provar!
O poder e o dinheiro fascinam
É fácil seduzir
Corromper
Se você não é corrompido.
Geralmente aceita
Há quem resista
Mas são poucos
Esses ainda correm perigo.
Destruir-me é praticamente impossível
Vocês são fracos
Vejo a ganância
Ódio
A vontade de se destacar
Ter uma posição
Ter posses
Vocês gostam de contar vantagem
Cultivar a vaidade
Desfrutar da luxaria
E se perder no gosto doce e irresistível do poder
Enquanto isso:
O ser
Os sentimentos
Os valores
E o sentido da existência
Que todos buscam
São esquecidos
Tudo por minha causa.
Eu me fortaleço
Comigo a educação é escassa
A cada migalha que ofereço
Alguém ganha
É cômodo
Não se esqueçam
É tudo um jogo
De vez em quando
É bom variar
O tédio me cansa.
Mas saibam:
Não quero você educado
Bem informado
Com poder de argumentação
Com senso crítico
Ou senso coletivo
Por isso sou contra a ciência
E a arte
Entretanto sou equilibrada
Sei que ambos são imprescindíveis
Até gosto
Elas provocam evolução
Mas tem que ser lenta
Para me adaptar
Raramente libero recursos pra isso
E quando libero
Fazem festa
Mas eu sei que posso mais
Muito mais!
No entanto:
Não quero sair da minha zona de conforto
Muitos preferem isso
Outros querem aquilo
Porém só eu sei quem vai vencer
Sou a dona do jogo!
Quero você individualista
Egoísta
Estimulado pelo senso comum
E conformado com a realidade que criei
Pode ficar com raiva
Vocês se acostumam
E reclamam
Eu não ligo
Afinal, não faço tanta diferença.
Não vou dar armas para ser destruída
Apenas vou ensinar você a sobreviver.
E, por fim…
Quero falar do Brasil
Meu case de sucesso atual
Lá sou menosprezada
Ou melhor, bem tratada
Lá é mais prazeroso brincar
Um pouco sem graça
Confesso!
A educação é sucateada
A informação é manipulada
O conhecimento é restrito
E as doutrinas são muito fortes.
Lá a fé é utilizada como moeda de troca
A humildade é sinal de fraqueza
E a honestidade é algo raro
Lá o dinheiro compra tudo!
A verdade
As leis
O veredito
Lá as estruturas
E os sistemas
Podem estar fadados ou fracasso
E mesmo assim
Há quem escolhe um lado
Eu me divirto.
Pra que?
Se a grande sedução lá é o poder
Porque dinheiro eles têm
Isso já me ganha
Claro que um ou outro camponês entra
Mas é só pra da número
No Brasil
Ninguém liga pra mim
Vocês sabem do meu processo
Elegem celebridades
Brincadeiras
Piadinhas
Assim até canso.
Vocês sempre acham que tem um líder
Ele é apenas um fantoche
Pode ser mais articulado
Culto
Populista
E até sociopata.
Não importa quem
Vocês insistem em gritar
E me culpar por tudo.
Por outro lado vocês me surpreendem
Não elegeram alguém por brincadeira
Desta vez
O ódio venceu!
Fiquei eufórica
Parabéns!
Vamos ao mito!
Com histórico de atleta
Apoiador da ditadura
Que adentrou no meu mundo
Como uma bomba!
Até fiquei empolgada
Ele é doido
Gosto de lunáticos
No meu cotidiano têm vários
O mito foi fácil
Ele é claramente sociopata
Com problemas psicológicos
E com um grave problema de aceitação
Principalmente sexual
Pra mim um desafio não tão novo
Vamos ao histórico de ascensão:
O mito foi afastado do exército
E fez como todo mundo faz.
Promoveu-se
Envolveu a família
Fez acordos
Manipulou a lei
E o judiciário
Ele é minha melhor espécie.
Sem escrúpulos
Burro
Ingênuo
Ah, tenho que escrever
É corrupto
Poucos não são
Tenho que ser direto
Porque, sabe?
Estamos falando de um mito
Lembre-se eu criei o jogo.
Ele faz o meu trabalho
Despeja ódio
Não dialoga
É infantil
Tem raciocino curto
Sem mascara
E de cara limpa
Ele favorece uma pequena classe
É tudo que faço
Desde o início
Mesmo assim, tem seu gado.
Nesse jogo
Mantenho meu circo
Não importa o lado
Mas o mito é descarado
Ele é tão bom!
Que ressuscita raposas mortas
Assim marco um gol sem esforço
Por mais que elas sejam ruins
Tentam, pelo menos, seguir a lógica
O mito não!
Olha só!
Aprovou dois projetos na câmara
Destilou veneno
Ofensas
Preconceitos
Fugiu de debate
E, por uma facada, foi eleito.
Sensacional!
Sem um plano de governo
E com uma equipe burguesa
Ele faz do país seu jardim de infância
Convenhamos ele continua me alimentando
E muito bem!
O mito e seu gadinho são previsíveis
Vão culpar outros companheiros
Os parlamentares
A imprensa
A pandemia
Mas nunca vão assumir a responsabilidade
E o mito vai seguir isento.
Eu gosto destes personagens
Já foram tantos
Uns mais divertidos
Outros nem tanto
Mas o mito tá muito automático
Não precisa de controle
Eu só vejo:
Ele maltratar os pobres
Aumentar a proteção de quem o elegeu
Criar desinformação
Incentivar a desigualdade
E estimular o preconceito
Isso é minha culpa
Nunca quis uma sociedade evoluída.
Porém, agora
Eu não preciso fingir nada
O mito é tão cara de pau
Que me expõe
Sorte que as estruturas são fortes
Uma vez ou outra dou uma mãozinha
Porém ele não precisa
Continua promovendo o caos
Acabando com a diplomacia
Aumentando a polaridade
Distribuindo ódio
Oferecendo retrocesso
Sendo irresponsável
Cruel
Causando indiretamente a morte do seu povo
Pasmem!
Ainda há quem aplauda.
Tudo culpa minha!
O mito
Tem uma função
De aprendizado
Para vocês refletirem
Pensar em mim de outra forma
Com outros moldes
Outras estruturas
Sem sistemas
Ou controles
Fundamentada em outras lógicas
Ou sem fundamentos
Não pense somente em outros
Ou novos nomes
Tudo que criei ainda está aqui
Aproveitem a quarentena!
Claro, até um poste é melhor que o mito
Prefiro brincar escondida
Ele queimou a largada
O jogo se torna mais instigante por debaixo dos panos
Eu sei que uma hora o mito cai
Mas o estrago já está sendo feito
Não que eu não goste
Fui criada para isso mesmo
Mas não se iludam
Eu estou afirmando
Eu não presto
Sou podre
E posso acabar com vocês
E com tudo que já foi feito.
Nasço de novo
Com outra forma
Mas eu não quero.
Sou doente
Preciso descansar!
Então:
Muito prazer
Pra quem não liga
Ou ainda não me conhece
Sou a política!
Fui criada para manipular você
Sou velha
Ultrapassada
E de tempos em tempos
Renasço
Mas será que quero isso?
Já passei por revoluções
Guerras
Crises
Epidemias
E pandemias
Já me moldei de diferentes formas
Deixei várias elites sedentas pelo poder
Até sucumbirem-se
E outra emergir
Eu sou assim
Fácil
Quem me oferecer mais
Me leva.
Vocês me criaram
Eu estou implorando!
Mudem!
Sou a pior invenção de vocês
Hoje eu os controlo!

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