A arte sobrevive e tenta alertar o povo para não repetir os mesmos erros

“Gota D’ Água [À Seco] “ nos remete a um período que não pode voltar

Neste dia 31 de março, infelizmente, ainda temos que lembrar um dos momentos mais obscuros e tristes da história deste país. É inaceitável ver nosso representante maior celebrar a data que foi implantada o regime militar no Brasil. Isso descreve o momento tenebroso que estamos passando.

Queria brindar o amor o respeito, a admiração e a diversidade social. Queria dizer que, apesar de um passado, repleto de absurdos com muito sofrimento, dor e sangue, aprendemos e evoluímos. No entanto, choro pela falta de memória, pela falta de consideração e respeito ao ser humano. Estamos retrocedendo, o ser humano está se mostrando cada vez mais egoísta, se importando somente com o seu casulo, buscando prazeres materiais e, não se importando com o resto. Apoiam-se em dogmas, doutrinas e crenças para justificar o injustificável.

Foto Divulgação

Para tentar mudar esse mundo hostil, a arte tem um papel fundamental de alimentar e abastecer a alma de um povo e, assim, se tornar o trunfo do mesmo, Sendo a base da transformação social em todos os níveis. Ao invés de ser fomentada, a arte está sendo marginalizada, colocada como segundo plano e, por incrível que pareça, os artistas estão sendo ofendidos gratuitamente. Por muitos que não conhecem a sua força e, deste modo, são facilmente manipulados por um grupo de pessoas que só tem um objetivo, manter seu rebanho sobre controle.

Mesmo nesse cenário desfavorável e incerto, muitas pessoas tentam manter essa paixão pela arte viva e, mesmo vendo o cenário político conturbado em 2016, Laila Garin, João Falcão e Andréa Alves, não imaginaram que três anos mais tare, a releitura da obra “Gota D’ Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, escrita em 1974, fosse ganhar contexto tão atual. Como a história é complexa com vários enfoques e, logicamente, muita bem escrita, com mensagens embutidas em cena, mas não compreendida pelos militares, a produção da peça foi autorizada, entrando em cartaz no ano seguinte.

Mais de 40 anos se passaram e a história de Joana e Jasão ganhou uma nova roupagem, com um dueto em cena. Laila Garin e Alejandro Claveaux dividem o palco. Através de uma grande estrutura, os atores montaram suas coreografias com a ajuda do palco em movimento. O espetáculo, montado em cima do roteiro original, foi adaptado com mais nove canções, o que reduziu o tempo da montagem original em quase uma hora.

Muito sincronizados, os protagonistas contaram e cantaram uma história que tem vários focos que, vai muito mais além do que a simples e conturbada relação entre marido e mulher. Relata bem à sociedade machista, o egocentrismo do homem, a força e, o tanto que a mulher é colocada e exposta com extrema fragilidade perante a sociedade.

A Busca pelo poder a todo custo, esquecendo-se das suas raízes e da própria comunidade. A tentativa de querer tudo sem abrir mão de nada, manipulando sentimentos e, passando a imagem de bom sujeito que é incompreendido, parece algo atual?

Jasão quer ser o dono da Vila do Meio Dia, para isso, ele se separa de Joana e a abandona com dois filhos para se casar com a filha de seu Creonte, proprietário do conjunto habitacional. Jasão aproveita da grana do futuro sogro para tentar alavancar sua carreira como compositor, já que ele estava na boca do povo com seu sucesso “Gota D’ Água”. Do outro lado, está Joana, uma mulher mais velha, sem dinheiro e com dois meninos pequenos. Ela ensinou o jovem tudo que sabe, o transformou em sucesso e, deste relacionamento, colheu sofrimento.

Essa história se desenrola por meio de um texto maravilhoso e uma trilha sonora que encaixa com os movimentos em cena. Ao todo, são 13 músicas, dentre elas, estão “Mulheres de Atenas”, “Cálice” e “Pedaço de Mim”

A relação passional entre Joana e Jasão serve como pano de fundo para outras questões, tais como: o poder e o dinheiro, a relação opressor — oprimido, a sociedade machista, a construção da imagem e como manipular a mesma.

Com situações tão latentes, não tem como negar que essa história, escrita no regime militar, é atemporal e, infelizmente, esse momento de terror e de falta de memória, vem ganhando força e ofuscando o talento de quem pode ajudar um povo a não repetir os mesmos erros.

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